2. ENTREVISTA 10.4.13

BEL PESCE - "NINGUM FAZ SUCESSO SEM QUEBRAR A CARA"

Brasileira que fez carreira no Vale do Silcio diz que habilidades empresariais devem ser aplicadas no dia a dia e afirma que fracassar  normal
por Juliana Tiraboschi

 INICIATIVA - Para entrar no MIT, Bel apareceu de surpresa na casa de um ex-aluno
 
Com apenas 25 anos, a empresria paulistana Bel Pesce  o perfeito exemplo de mulher brasileira bem-sucedida no Exterior. J estudou no Massachusetts Institute of Technology (MIT), o prestigiado instituto de tecnologia americano, trabalhou no Google e na Microsoft e montou sua prpria empresa, a Lemon, que criou um aplicativo para celulares que funciona como uma carteira digital. Seu livro, A Menina do Vale, foi lanado online  de graa  e baixado dois milhes de vezes. A verso impressa vendeu 50 mil cpias e ficou durante semanas na lista dos mais vendidos do Pas. Depois de seis anos vivendo nos Estados Unidos, ela voltou ao Brasil para lanar um novo projeto, o FazInova, uma escola de empreendedorismo que vai ensinar a colocar ideias em prtica, buscar solues e desenvolver habilidades teis para a vida e para o trabalho, como a capacidade de se comunicar e negociar. Aplicar no dia a dia as lies do mundo dos negcios, alis,  uma das filosofias de Bel, que afirma ter quebrado a cara vrias vezes antes de chegar ao sucesso. Eu aprendi mais com as iniciativas que deram errado, afirma a jovem, que ainda enfrentou o desafio de lidar com as burocracias e a politicagem das gigantes da tecnologia.  uma pena gastar tempo com isso, mas  assim.

"Se voc procurar algo em comum, vai ver que Steve Jobs e Ayrton Senna eram alucinados e apaixonados pelo que faziam

Empresas como o Google so boas para aprender a navegar por hierarquias.  uma pena gastar tempo com isso, mas  assim"

Isto - Como comeou sua histria empreendedora?

Bel Pesce - Eu sempre gostei muito de escola, de estudar, sempre fui muito nerd e curiosa. Com 10 anos, fazia bijuteria para vender, procurava computadores que empresas jogavam fora, desmontava, fazia mquinas novas e dava para pessoas carentes.

Isto - Ento voc tinha esse tipo de motivao desde criana?

Bel Pesce - Sim, mas eu nem conhecia a palavra empreendedorismo. Da fui crescendo e desenhando a escola dos meus sonhos. Mas era algo muito ambicioso. Depois fui para os EUA, comecei a empreender e percebi que o que me fazia passar em uma entrevista de emprego ou lanar um projeto eram essas habilidades.

Isto - Como voc entrou no MIT?

Bel Pesce - Eu venho de famlia simples, nunca aprendi sobre oportunidades l fora. Gostava muito de matemtica e consegui uma bolsa no (colgio) Etapa para o ensino mdio. Queria entrar no ITA (Instituto Tecnolgico de Aeronutica) e, por isso, fui fazer um curso especfico. Comecei a ir bem nos testes de matemtica e o coordenador veio me falar do MIT. Fiquei alucinada e fui atrs. Mas eu tinha perdido os prazos de inscrio para etapas intermedirias da seleo, como o teste de mltipla escolha e a entrevista com um ex-aluno. A percebi que tinha que ser criativa. Soube de outro aluno que estava prestando MIT, pedi o endereo da pessoa que o tinha entrevistado, e apareci na casa dele.

Isto - Como foi esse encontro? 

Bel Pesce - Levei  casa dele uma caixinha com bijuterias que eu havia feito, medalhas de esporte, um livro que escrevi sobre a minha cachorra  tosqussimo, mas levei , uma pastinha que eu tinha com ideias de jogos de videogame, e virei a caixa de ponta-cabea na mesa dele. Ele foi muito bacana e, mesmo com o prazo encerrado, enviou um timo relatrio sobre mim ao MIT.

Isto - E como voc contornou o problema do prazo da prova para o MIT?

Bel Pesce - No dia da prova, fui  escola que aplicava o teste e literalmente me expulsaram de l. A organizadora ficou bravssima comigo e me botou para fora. No fui embora e pedi para ficar e ver se algum faltava para eu fazer a prova no lugar. Uma pessoa faltou e fiz o teste.

Isto - Logo no primeiro ano voc entrou na Microsoft. O que fazia l?

Bel Pesce - Primeiro, fazia aplicativos para telefone. Ento, em 2008, toquei um projeto muito legal. Era um aplicativo para webcam que rastreava cores. Se eu pegasse um objeto e mandasse o computador rastrear a cor dele, podia escrever coisas no ar e o texto aparecia na tela, ou podia usar como um joystick de videogame. Virou o terceiro projeto de software aberto mais popular da Microsoft. Era um projeto que estava engavetado e eu ia ficar s trs meses e meio l naquele ano. Disseram que eu no ia conseguir fazer em tempo. Mas sa pelos corredores procurando gente para me ajudar e deu certo.

Isto - E qual era seu trabalho no Google?

Bel Pesce - Fiz um mestrado l, em uma parceria que a empresa tinha com o MIT. Era desenvolvedora e pesquisadora de matemtica e cincias da computao. Trabalhei para melhorar o funcionamento da ferramenta de traduo. Meu trabalho era identificar os gargalos no processamento das informaes, o que fazia o sistema travar, antes que eles acontecessem. Depois decidi sair de l e fui para uma empresa de plataforma de vdeos chamada Ooyala.

Isto - Por que voc quis sair do Google?

Bel Pesce - Porque a empresa era muito grande para o que eu desejava. Eu queria empreender. A Ooyala deixava eu fazer o mestrado, que era extremamente tcnico, e desenvolver produto. Minha equipe comeou comigo e um engenheiro e depois virou trs times de cerca de 20 pessoas.

Isto - Como foi liderar um grupo como esse com apenas 22 anos? 

Bel Pesce - A gente usa a palavra liderar, mas era muito mais um trabalho de equipe. Na prtica, eu no era chefe deles, mas tinha responsabilidade sobre o trabalho.

Isto - O que voc aprendeu trabalhando nas empresas grandes?

Bel Pesce - Muita coisa. Empresas como o Google so boas para aprender a navegar por hierarquias.  uma pena gastar tempo com isso, mas  assim. Se voc tiver uma startup e quiser negociar com grandes empresas, tem que aprender a lidar com isso. Voc pode ser um empreendedor dentro da sua empresa, pode inovar. Para mim, o empreendedor  algum que toca vidas, com produtos ou servios. Se eu sou um adolescente de 15 anos e monto um clube do livro na minha escola, eu sou um empreendedor. Eu tenho uma viso mais ampla. Voc pode usar o jeito empreendedor de pensar no seu dia a dia. 

Isto - Voc sofreu resistncia por ser mulher, brasileira e jovem no Vale do Silcio?

Bel Pesce - No, s ajudou. O Vale  muito aberto. Se voc mostra resultado, as pessoas acreditam em voc. Isso funciona em qualquer idade. A mulher brasileira  bem-vista no Vale do Silcio. No sofri preconceito, mas pessoas do sexo feminino ainda so minoria na rea de engenharia e tecnologia. Acho que  um problema cultural, de base. A meninada cresce sem ver exemplos. Deve existir um monte de engenheiras maravilhosas, mas a gente no v exemplos.  preciso disseminar mais a ideia de que as mulheres podem fazer coisas muito legais.

Isto - E como nasceu a vontade de criar uma escola?

Bel Pesce - Comecei a perceber que as habilidades que eu usava no dia a dia, para conseguir alguma coisa, negociar, no eram ensinadas na escola. E essas so coisas muito importantes. Eu sempre sonhei com essa escola. Quando o meu livro fez sucesso, vi que as pessoas estavam interessadas no assunto e percebi que era hora de concretizar a escola. E quis fazer no Brasil. 

Isto - Como a escola vai funcionar?

Bel Pesce - No longo prazo, quero disponibilizar o material e as aulas online, para qualquer um acessar. Mas, para o material ser bom, tenho que testar com gente, ento o presencial  muito importante. Vou comear com trs cursos-piloto para testar durao e didtica. Tambm vou fazer alguns workshops de um dia. Quero testar formatos. 

Isto - O que vai ser ensinado nos cursos?

Bel Pesce - Um  bem focado em empreendedorismo. H dois problemas em relao ao tema. As pessoas acham que empreendedor  uma pessoa com viso de futuro que se tranca num escritrio, lana a ideia e d certo. Isso no existe. Empreender  ir para a rua, testar suas ideias e hipteses.  dar um monte de minipassos. Voc vai cair e vai se levantar. Ningum faz sucesso sem quebrar a cara. O segundo problema  que o ato de empreender est glamourizado. As pessoas veem os exemplos positivos e, quando a ideia delas comea a dar errado, desistem, porque acham que todo mundo que acertou conseguiu em trs meses. Outro mdulo importante  o de inovao. Tem muito curso bom por a, mas so muito tericos. Vamos ensinar tcnicas de inovao com problemas reais. 

Isto - Como voc desenvolveu essa metodologia?

Bel Pesce - Peguei feedback de muita gente e juntei com experincias da minha vida. Fiz muitos cursos, no MIT, em Stanford, visitei muitas empresas, li muitos livros. Estou tentando trazer o que aprendi de mais relevante.

Isto - Antes da Lemon, sua empresa de carteira digital, dar certo, voc tambm fracassou?

Bel Pesce - Tive cinco empresas no MIT, voc ouviu falar de alguma? Mas eu aprendi mais com as iniciativas que deram errado. Quando isso acontece, quero entender por que, peo retorno das pessoas. Por exemplo, no comeo eu era muito engenheira, s pensava no produto. Mas tem o mercado, tem a forma de distribuio, politicagens, apresentao e marketing. Isso eu fui aprendendo aos poucos.

Isto - Quais so as principais diferenas entre comear um negcio no Brasil e nos EUA?

Bel Pesce - Acho que a maior diferena  no modo de pensar, em como se aprende com o fracasso. O Andrew Mason, CEO do Groupon (empresa de compras coletivas na internet), por exemplo, foi demitido recentemente. O cara errou para caramba, a empresa perdeu muito dinheiro. Ele escreveu uma carta em que falou brincando que ia  tirar umas frias, mas depois pediu desculpas, assumiu o erro. Ele est sendo idolatrado l fora. Aqui, ele nunca mais ia conseguir um emprego. 

Isto - Em seu livro, voc cita pessoas que serviram de inspirao, como Steve Jobs, Ayrton Senna, Silvio Santos e Richard Branson (fundador do grupo Virgin). Para voc, eles tm algo em comum?

Bel Pesce - Admiro essas pessoas por razes bem diferentes. Se voc procurar algo em comum, vai ver que Steve Jobs e Ayrton Senna eram alucinados e apaixonados pelo que faziam. Claro que no adianta s fazer de corao, mas, se voc fizer, as chances de dar certo so muito maiores, voc se esfora mais.

